Vivemos numa sociedade que tem certa dificuldade em olhar para a dor e reconhecê-la. Não há espaço para demonstrar sentimentos, e aqueles que geralmente estão presentes num processo de luto - como tristeza, raiva e inveja - são considerados inadequados, como se existissem sentimentos inadequados. Sentimentos são sentimentos e reconhecê-los permite aceitarmo-nos a nós mesmos e ao outro, sem julgamento e com respeito.
Ao não levar um bebê vivo para casa, passamos a habitar um mundo inóspito, desprovido de ar, sensações e presença. Os ossos sonhos e projeções foram-nos arrancados antes de ser possível vivenciá-los no mundo real, e isso é horrível. De repente, tem que se viver com a dor de um dos maiores medos de todos que têm filhos: perdê-los.
Quando se trata de luto, não há espaço para ideias binárias: é isso ou aquilo. O luto é pessoal, subjetivo e único. Perder uma gravidez é um luto não reconhecido e, por isso, tão invisível. Esta realidade lembra-nos que, mesmo numa sociedade que procura controlar e prever tudo, continuamos profundamente vulneráveis — confrontados com a nossa fragilidade e com a inevitável impotência perante certos acontecimentos da vida.
Pode ser que, neste momento, sinta que ninguém compreende o que está a acontecer na sua vida. Não existe uma forma certa ou errada de lidar com a perda de um filho, e aceitar que não controlamos a maioria das coisas passa também por este processo de desconstrução e reconstrução.
Ainda assim, há algo que pode fazer diferença: dar nome ao que aconteceu e permitir-se viver esta dor com apoio e dignidade. O luto perinatal não é “menos” por não haver memórias longas — há vínculo, há amor, há um lugar ocupado no corpo e na vida.
Se lhe fizer sentido, procure formas de honrar a existência do seu bebé: um ritual íntimo, uma carta, guardar uma recordação, plantar algo, dizer o nome em voz alta. Pequenos gestos podem dar forma ao indizível e ajudar a integrar a perda.
E, sobretudo, não precisa de lidar com esta dor sozinho/a. Fale com alguém de confiança, procure um profissional ou um grupo de apoio. Merece um espaço seguro onde a sua dor seja reconhecida, sem pressa e sem julgamentos. Porque o amor que existiu é real — e o luto também.