Entrevistámos David Dias Neto, o coordenador da investigação que procurou testar a eficácia do programa preventivo Empower-Grief. Esta investigação resultou de uma parceria entre o APPsyCI Research e a InLuto, e contou com a participação de cuidadores e familiares de pacientes de cuidados paliativos e oncologia da Unidade Local de Saúde Santa Maria.
O programa foi criado para apoiar pessoas em risco de complicações no luto, particularmente em contextos de doenças prolongadas. A intervenção cognitivo-comportamental é constituída por 6 sessões semanais de aproximadamente 50 minutos, seguidas por 2 sessões de follow-up. Procura proporcionar um espaço seguro para explorar sentimentos difíceis e desenvolver estratégias mais compassivas e adaptativas para lidar com a perda, promovendo a aceitação, o autocuidado e a resiliência.
O formato estruturado e de fácil aplicação representa uma solução prática para instituições com recursos limitados. Além disso, a intervenção incorpora medidas padronizadas de avaliação, e pretende encurtar a distância entre diretrizes políticas e a prática clínica de rotina.
Como surgiu a ideia de adaptar o programa e o que motivou esta investigação?
A ideia surgiu numa conversa com a Prof.ª Alexandra Coelho sobre a necessidade de ter disponíveis intervenções seletivas na área do luto. A maioria das intervenções são focadas num período em que a reação de luto já se tornou demasiado problemática. A Empower-Grief e intervenções similares focam-se num período anterior, antes das reações se tornarem crónicas, e têm um foco preventivo. Ou seja, pretende ajudar as pessoas mais cedo e de forma mais rápida.
A Empower-Grief demonstrou tanta eficácia quanto o tratamento habitual. Quais são as principais vantagens desta intervenção?
Na realidade, nós não estávamos à espera de que a intervenção fosse superior, pelo menos significativamente. O que nos importava era ver se era eficaz. Sendo eficaz, pelo menos quando comparada com o que é o tratamento habitual, a Empower-Grief tem várias vantagens: é mais curta, e por ser estruturada pode ser aplicada por psicólogos com menos experiência. Isto é importante pois, se conseguimos o mesmo efeito com menos recursos, então podemos chegar a mais pessoas.
Quais são os principais resultados do estudo?
A intervenção reduz os sintomas de luto prolongado, bem como de ansiedade e depressão. Esta redução mantém-se depois do tratamento terminar, por um período de pelo menos 6 meses.
Houve alguma surpresa?
Não houve propriamente uma surpresa, mas também não era certo que a adaptação do tratamento resultasse. A Empower-Grief foi desenvolvida com base numa intervenção americana desenvolvida por duas investigadoras de renome – a Wendy Lichtenthal e Holly Prigerson. A intervenção era algo diferente, pois iniciava-se antes da morte e era ainda mais curta. Além disso foi desenvolvida para um contexto anglo-saxónico. A adaptação contou com a sensibilidade clínica da equipa, nomeadamente de Alexandra Coelho, Sara Albuquerque e Ana Nunes da Silva.
Existem já planos para aplicar este programa? A que escala?
Estamos em processo de realizar novos estudos em torno desta promissora intervenção. E a intervenção está disponível para quem a quiser integrar dentro dos seus serviços ou respostas. Não vemos esta intervenção como a solução para todas as questões na área do luto, mas antes como uma intervenção boa numa lógica de resposta diferenciada. Creio que hoje é evidente que a melhor resposta do luto é uma resposta diferenciada que tenha em conta o momento, a pessoa e o contexto.
Que barreiras se esperam encontrar?
Ainda existe muita desvalorização das intervenções psicológicas na área do luto. Uma boa parte das pessoas acredita que como a morte é uma experiência normativa, não deve existir cuidado no luto. Isto faz com que o cuidado seja pouco e tardio. Essa para mim é a principal barreira. Estas intervenções e o seu estudo mostram que intervir precocemente em reações de luto menos boas é importante e poupa sofrimento desnecessário. Não é tornar o luto sinónimo de doença mental, é aceitar que a morte de uma pessoa próxima é desafiante e que um apoio atempado previne que o sofrimento se torne cristalizado.
Há aplicabilidade além do contexto dos cuidados paliativos?
Claramente. Aliás, com o evoluir das nossas sociedades, a maioria das pessoas morrerá por doenças não comunicáveis como o cancro e numa idade avançada. O contexto de realização deste estudo é próximo dessa realidade e como tal creio que os estudos são generalizáveis.
Quais são as qualificações profissionais necessárias para aplicar o programa?
Dada a natureza do programa, é suficiente ter habilitação para o exercício da psicologia. O programa em si implica treino e nós fornecemos, durante o estudo, supervisão.
Há possibilidade de adaptar a grupos?
Sim. E creio que seria uma ideia interessante no sentido de aumentar ainda mais as pessoas a alcançar. A intervenção é sistemática e modular, pelo que a adaptação a um setting de grupo seria fácil.
Que dificuldades encontraram durante a investigação?
A principal dificuldade foi no acesso às pessoas enlutadas. Nós tivemos a sorte de contar com o apoio da ULS Santa Maria – especificamente os serviços de cuidados paliativos e oncologia. Este apoio foi essencial à realização do estudo quer pelo acesso aos familiares dos doentes falecidos, quer pela participação dos colegas do serviço de cuidados paliativos no estudo do tratamento usual. Dito isto, tivemos algumas portas fechadas antes. Existem muitos serviços que por estarem muito assoberbados com as necessidades de cuidado não vêm disponibilidade para participar em investigação. E isto é um problema. Portugal é um país onde existe muita falta de dados sobre os problemas relevantes e sobre as intervenções e cuidados prestados pelos serviços. Isso implica ver a investigação e monitorização das atividades como inerentes ao serviço, em prole dos doentes e cuidadores.
Que perguntas ficam por responder?
A beleza da investigação é nas perguntas que ficam por responder… Há duas perguntas que nos inquietam a curiosidade. A primeira tem a ver com a tal ideia de diferenciação. Sendo a ideia de diferenciação algo que é recomendado por várias entidades e que clinicamente faz sentido, quanto é que essa diferenciação aumenta a eficácia do cuidado prestado. A segunda tem a ver com a identificação dos tais fatores que são relevantes para essa diferenciação. Neste estudo usámos uma medida de risco que assenta em sintomas de luto prolongado. Ora, essa medida parece-nos muito crua para esta diferenciação. Será que existem outras variáveis mais interessantes?
Quais são os próximos caminhos de investigação? Há novos projetos em vista?
Na realidade as mesmas perguntas que aguçam a nossa curiosidade correspondem a projetos que temos em curso. Vamos tentar continuar a estudar a Empower-Grief, agora num enquadramento de várias intervenções, para ver o valor acrescido da diferenciação. Sobre a questão da diferenciação, estamos a estudar o papel das necessidades relacionais como sendo uma das dimensões que podem ser usadas na identificação de pessoas com necessidades particulares de apoio.
Não queria terminar esta conversa sem deixar o meu e nosso agradecimento à InLuto pelo apoio dado a estas iniciativas.
Ajudar é também estar disponível para estudar formas de ajudar melhor!

