O lugar do luto na época festiva

Dezembro assinala o fim de mais um ciclo e convida, silenciosamente, a rever o passado. Revisitamos o que mudou, o que perdemos, o que permanece, como crescemos. E, ao pensar no passado, começamos também a antecipar o futuro – “como será daqui para a frente?”, “estarei pronto?”, “como vou (sobre)viver?”.

Marcamos a passagem do tempo celebrando em união, em torno de tradições que nos aproximam de quem nos é querido. Mas como celebrar a união na falta de quem melhor representa essa proximidade, essa partilha e esse amor? Nesta altura, o luto pode ganhar uma nova intensidade, porque a ausência da pessoa que perdemos se torna mais evidente.

Também pensamos nas celebrações que se avizinham e naquele lugar que antes era ocupado que agora permanece vazio. Além da perda da pessoa que se ama, perdem-se também os planos – o Natal e outros rituais que deixam de existir como eram. Podem surgir dias marcados pela antecipação da falta que a pessoa fará e a sensação de que estes tempos nunca mais poderão ser vividos da mesma forma.

Ainda assim, esta antecipação pode ajudar a planear: pensar como se quer viver esta época, preparar os momentos difíceis e cuidar de nós e de quem nos é próximo.

Como mostro que não me sinto bem, quando estão todos a celebrar?

Vivemos um mês de celebração social, dominado por narrativas de alegria e esperança. O luto pode tornar-se uma vivência profundamente dissonante. O brilho e agitação das ruas entram em contraste com o se que vive por dentro – uma sensação de que se está mais longe, mais lento, mais cansado e com menos vontade de agir. Pode surgir um impulso de silenciar a dor para acompanhar o ritmo do mundo, correspondendo às expectativas. Mas, em luto, a ideia de celebrar pode ser assustadora e aumentar a ansiedade. Tentar acompanhar as solicitações da época pode sobrecarregar-nos, levando-nos à exaustão.

Escutar o que vai dentro

Os sentimentos que emergem podem ser muito intensos e é importante que encontrem lugar no nosso dia a dia. As emoções mais difíceis – como a tristeza ou a zanga – não vão “estragar” o Natal tal como momentos de felicidade não poderão anular a dor da perda. Criar espaço para o que vai dentro permite perceber o que se precisa e estabelecer limites – “quero ter mais tempo para mim?”, “fará sentido uma celebração mais íntima e curta?”, “preciso de me ausentar?”.

Em luto, estarei só?

Conversar sobre o que se sente e sobre o que se pretende (ou não) fazer ajuda a mitigar as expectativas e a construir planos que respondam às necessidades reais. Muitas famílias, na tentativa de se protegerem, preparam as festividades como se nada tivesse acontecido, evitando reconhecer a ausência. Por isso, partilhar o que se está a viver pode ser desconfortável, mas tomar essa iniciativa pode abrir espaço para que o outro também expresse o seu luto, permitindo dar e receber apoio. Ao mesmo tempo, torna-se uma oportunidade de estabelecer uma ligação e trazer a pessoa que se perdeu para o ceio da família de uma nova forma.

Descobrir lugares de memória e presença

Honrar a memória da pessoa que partiu e simbolizar o amor que ainda prevalece pode acontecer através de gestos que representem a relação: visitar um local especial, contar histórias, ver fotografias, escrever uma carta, usar uma decoração significativa ou simplesmente recordar em silêncio. Encontrar novos lugares de presença pode ser uma forma de dar sentido aos aspetos mais duros do luto e de encontrar conforto onde menos se espera.

O fim de um ciclo pode ser uma oportunidade para acolher emoções e memórias, para incorporar a perda, tornando esta época mais autêntica e significativa.
Se este mês estiver a ser particularmente difícil de atravessar, estamos disponíveis para o receber, escutar e apoiar. Contacte-nos.

 

Autoria: Sabina Castro | Estudante de Psicologia Clínica
Coordenação final: Alexandra Coelho | Psicóloga Clínica, Presidente da InLuto

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